Leia antes de chutar o balde para correr atrás dos seus sonhos

Tempo de leitura: 5 minutos

Por Eduardo M. R. Lopes

Antes de chutar o balde e pedir demissão do emprego que você odeia para cair na estrada em busca dos seus sonhos, gostaria de te contar rapidamente a história de um sujeito genial que faz o que ama e ama o que faz há mais de cinquenta anos, e assim te ajudar a refletir sobre a importância de montar uma estratégia conectada com a sua arte como diferencial para te levar do chutar para o conquistar de forma consistente.

Pois bem, vamos falar sobre o mestre Mauricio de Sousa, o criador da Turma da Mônica, que sempre gostou de desenhar.

Ele cresceu desenhando e também trabalhando com o pai nos negócios da família até que o sonho de viver como desenhista falou mais alto lá na década de 60; então, juntou os desenhos, arregaçou as mangas, saiu do interior de São Paulo e foi para a capital literalmente para bater de porta em porta nos jornais para fazer o óbvio numa época pré-pré-internet: mostrar os seus desenhos para ser contratado como desenhista.

Como pode-se deduzir, não conseguiu, uma vez que o mercado de jornais que ele prospectava já era bem restrito, o número de desenhistas contratados nestas empresas era ainda menor e as vagas disponíveis não passavam de uma miragem.

Entretanto, ao invés de voltar para casa, mudar de profissão ou ficar resmungando que o mundo era mau, resolveu dar ouvidos a um dos jornalistas que tinha visto o seu trabalho e aceitou uma dica que acabou sendo vital para o seu desenvolvimento: se o melhor lugar para um desenhista trabalhar era dentro das redações dos jornais e se era muito difícil ser contratado como desenhista, então o passo zero da estratégia deveria ser dar um jeito de ser contratado em um jornal para fazer QUALQUER coisa.

Simples assim.

– “Ah, mas eu amo desenhar, meu sonho é desenhar, larguei o interior para vir para a capital só para viver de desenho”, deveria ter pensado o jovem Mauricio, assim como pensam tantos outros jovens que estão doidos para fazerem apenas e tão somente aquilo que querem, sem darem-se conta de que, muitas vezes, para quebrar o sistema é necessário primeiro entrar e dominá-lo.

Uma vez lá dentro, ele deveria executar um bom trabalho para ganhar visibilidade entre os seus pares e chefes, além de ir trabalhando em paralelo na melhoria constante do seu traço (inclusive aproveitando os feedbacks dos novos colegas), para aí sim apresentar os seus desenhos quando houvesse reais oportunidades na redação e conquistar o seu objetivo.

Desta forma não havia garantia, mas as coisas poderiam se tornar mais fáceis, pois teoricamente é mais simples e fácil para as empresas promoverem ou mudarem de função funcionários com históricos já conhecidos do que contratarem novos “desconhecidos”.

E ele tanto tentou que acabou contratado como… repórter policial.

– Espera aí! Como assim? O cara é desenhista e vai trabalhar como repórter?

Pois é, na vida tudo tem um preço e quando se está clara a estratégia para atingir o objetivo, mesmo que a princípio os desafios possam parecer surreais e intragáveis para os que estão de fora, no fundo no fundo para os que estão dentro fazem todo o sentido – e, ao fazerem sentido, fica muito mais fácil para se perceber as oportunidades e um pouco menos cansativo para suportar os revezes.

E lá foi ele dar o seu melhor como repórter policial até que, percebendo que apenas algumas das matérias policiais tinham fotos, inovou e começou a criar as ilustrações para as matérias que ele mesmo já escrevia.

Bingo!

Os desenhos nas reportagens começaram a fazer sucesso e o seu nome começou a chamar a atenção de todos – dentro e fora do jornal. Aí ele mostrou uma historinha do Bidu e do Franjinha, que acabou sendo publicada na seção onde ele queria trabalhar desde o início, criou um novo mercado e o restante virou História com H maiúsculo rendendo milhares de historinhas que encantam crianças há mais de cinquenta anos e que continuarão encantando por outras tantas gerações.

Portanto, antes de pensar em chutar o balde e começar a correr feito louco atrás dos seus sonhos, preocupe-se seriamente em montar um plano para que a estrada por onde irás caminhar seja gradualmente pavimentada de forma sólida, pois caso contrário você continuará patinando em cima de uma base frágil e não conseguirá chegar a lugar algum, terminando por ser engolido com louvor pelas areias movediças da desilusão e da frustração.

Lembre-se que o emprego que você tanto odeia talvez seja uma porta disfarçada para o trabalho que você ama – desde que você esteja disposto a aprender sempre, que esteja com os olhos abertos para enxergar e aproveitar as oportunidades, e que entenda que isso poderá ser um dos tijolos que fortalecerão ainda mais a base da sua caminhada.

Em tempo I: Finalmente saiu a autobiografia do mestre (clique aqui para saber mais sobre o livro “Mauricio – a história que não está no gibi”), que ainda não li, mas este artigo foi baseado no antológico “Mauricio de Sousa – Biografia em quadrinhos”.

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